5 de nov de 2012

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Receita asiática de educação universal

Na Coreia do Sul, parcela da população com diploma quase dobrou em dez anos

21 de outubro de 2012 | 23h 00
Claudia Sarmento, correspondentente de O Globo

A economia da Coreia do Sul está longe do desempenho da economia da China e do Japão, mas o sistema educacional do pequeno país espremido entre as duas potências asiáticas se transformou em referência mundial. Quando a 2.ª Guerra terminou, apenas 22% dos coreanos eram alfabetizados. Hoje, no lado sul da península, o porcentual é de quase 99%. Os sul-coreanos estão entre os povos mais educados do mundo.

Não é só uma política de governo, mas uma obsessão nacional. A força motora do crescimento econômico sul-coreano é a educação, dizem os analistas.

Nos relatórios da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), a Coreia do Sul tem lugar cativo na lista dos dez melhores na área educacional. Seus indicadores estão frequentemente acima da média.

Em apenas dez anos, até 2010, o porcentual de sul-coreanos com diploma universitário subiu de 24% para 40%. Pelo menos 80%, entre 25 e 64 anos, terminaram o segundo grau (se a análise recair sobre a faixa etária entre os 25 e 34 anos, o índice sobe para 98%).


Ninguém duvida de que, sem a formação de capital humano, Seul não seria hoje um polo industrial e tecnológico tão fundamental, sede de pesos pesados como Samsung, LG e Hyundai.


"Na Coreia do Sul, a educação vem acima de tudo e isso explica a grande quantidade de engenheiros que o país formou nos últimos anos", diz o analista Hansoo Kang, do Instituto de Pesquisas Econômicas da Samsung.

O princípio da educação universal foi implantado logo após o fim da Guerra da Coreia, na década de 50. As escolas do ensino básico são gratuitas e o currículo das instituições públicas é único, estabelecido pelo governo federal. O ensino médio é custeado por impostos, enquanto a maior parte das universidades é privada.


China e Japão. Embora, em termos de porcentual do Produto Interno Bruto (PIB), o investimento em educação não esteja entre os mais altos do mundo - em torno de 4,5% -, os gastos particulares compensam.


As famílias coreanas não medem esforços para a formação dos filhos, encarada como a principal garantia de futuro. É comum as crianças saírem da escola e seguirem para cursinhos, até nos fins de semana. A maioria tem ajuda de professores particulares, um investimento visto como essencial em todas as classes sociais. O ensino do inglês, obrigatório no sistema público, é uma das grandes preocupações. Os sul-coreanos sabem que, sem o domínio dessa língua, suas chances despencam num mercado de trabalho globalizado.


"Mesmo em 1950, quando o país ainda tinha uma renda per capita equivalente à do Haiti, os padrões de formação dos professores já eram muito elevados. Eles são muito bem pagos e têm status social elevado", diz o professor Michael Seth, da Universidade de James Madison (EUA), autor de livros sobre a educação sul-coreana.


Com imensas diferenças sociais, os desafios educacionais da China são maiores, mas o país vem aumentando os investimentos no setor nos últimos anos. Os chineses lideraram o ranking do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa, na sigla em inglês) em 2010, à frente da Coreia. Receberam as maiores médias nas áreas avaliadas: leitura, matemática e ciência.


O poder da segunda maior economia do mundo tem permitido que as famílias chinesas paguem para que seus filhos estudem fora do país, nas melhores universidades. Um estudo divulgado em setembro pela Academia de Ciências Sociais da China mostrou que um em cada sete alunos matriculados em cursos no exterior é chinês. Nos EUA, esse porcentual chega a 22%. Em uma década, o número de estudantes no estrangeiro aumentou 17 vezes.

No Japão, 45% da população tem educação superior, segundo a OCDE. A evasão escolar é baixíssima: 96% dos adolescentes completam o ensino médio. Mas no país, que perdeu o posto de segunda maior economia do mundo para a China, é cada vez menor o número de estudantes que buscam instituições de ensino no exterior.

A queda, de pelo menos 11% nos últimos anos, preocupa as empresas japonesas, que precisam de profissionais com formação internacional para se tornarem mais globais. A crise no país reduziu as oportunidades, mas uma das principais discussões sobre a qualidade da mão de obra japonesa hoje diz respeito à falta de interesse dos jovens em olhar para o mundo lá fora.

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